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quarta-feira, 29 de março de 2017

Olhar

“e Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus…” Êxodo 3.6

O começo do terceiro capítulo do livro de Êxodo introduz uma ênfase na palavra “ver” – no hebraico ra’a. Até o verso 6, o verbo aparece cinco vezes (seis se contarmos a palavra “maravilha” no verso 3 que vêm da mesma raiz). Três das cinco vezes, a palavra está ligada a Moisés.

Moisés vê, vê, vê.

Mas, finalmente, quando Moisés percebe que a sarça ardente não contém apenas uma “grande maravilha”, mas o próprio Deus, o texto diz (3.6):

“Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus.”

A palavra “olhar” (o verbo nvt) no hebraico é diferente da palavra “ver”. Está ligada a observação, a olhar com cuidado, a contemplar (veja: Gen 15:5; 19:17, 26; Ex 33:8; Num 12:8; 21:9; 23:21; 1 Sam 2:32, 16:7).

Aquele que vê, vê, vê… teme olhar.

Este texto me lembrou de nossa geração de cristãos. Uma geração acostumada a ver, ver, ver. Uma geração acostumada a ver “grandes maravilhas” além da simplicidade da sarça. Acostumada a ver e requisitar programações, shows e eventos de suas igrejas.

Uma geração acostumada apenas a ver, mas não disposta a olhar. Pois na hora de olhar, de observar, de se aprofundar no Deus que fala através da Palavra, se esconde.

O final do livro de Êxodo mostra um Moisés diferente. Um Moisés que, com o tempo, aprendeu a olhar e falar com Deus face a face, como qualquer fala com o seu amigo” (Êxodo 33.11).


Que esta seja nossa história. Que possamos aprender com o tempo, que vale a pena nos aprofundarmos nas profundezas de quem Ele é, através da simplicidade da Palavra.
Vamos deixar de ver, e passar a olhar.

PS: Não desperdice oportunidades aparentemente simples (Deus estava na sarça!) de encontrar a Deus. Mesmo que a sarça seja um estudo bíblico vazio, ou um culto no meio da semana, ou até mesmo um estudo da Palavra no som do silêncio no fim de um dia.

 Fonte do ensinamento: Tiago Arrais

sexta-feira, 24 de março de 2017

O que está escrito na Lei? Como a interpretas?

“O que está escrito na Lei? Como a interpretas?”
(Evangelho de Lucas 10:25)

A pergunta parece simples. Mas não é.

Jesus não pergunta apenas o que está escrito.
Ele pergunta como se interpreta.

Há uma diferença profunda entre texto e leitura.
Entre mandamento e consciência.
Entre norma e vida.

O mestre da Lei responde corretamente. Ele cita o centro da revelação:
Amar a Deus com totalidade. Amar o próximo como a si mesmo.


Intelectualmente, ele está certo.
Existencialmente, ainda não.

E aqui começa o drama humano:
Sabemos definir o amor, mas não sabemos nos tornar amor.

Jesus responde:
— Faze isso e viverás.

Não diz: “Explique isso.”
Não diz: “Ensine isso.”
Diz: Viva isso.

O mestre, porém, sente o peso da implicação. Amar é perigoso. Amar é ilimitado. Amar não cabe em categorias seguras. Então ele pergunta:

— Quem é o meu próximo?

Essa pergunta é filosófica antes de ser religiosa.
Ela busca delimitação.
Quer fronteiras.
Quer um perímetro moral onde o dever termina.

Definir o próximo é tentar proteger-se do excesso do amor.

Se eu sei exatamente quem é, sei também quem não é.
E então posso amar sem me arriscar.

Mas Jesus conta uma história que implode essa lógica.

Um homem ferido.
Religiosos passam.
A ortodoxia anda, mas não se inclina.
O saber segue seu caminho, intacto.

E então um samaritano — o improvável, o rejeitado — interrompe sua rota.

Ele não pergunta quem o ferido é.
Ele se torna o que o outro precisa.

E aqui está o ponto filosófico do texto:

O próximo não é uma categoria a ser identificada.
É uma postura a ser assumida.

Jesus inverte a pergunta.

Não é “Quem se enquadra no meu amor?”
É “Eu me disponho a atravessar a distância?”

O mestre queria uma definição.
Jesus oferece uma transformação.

O amor, no Reino, não funciona por critérios de pertencimento.
Ele nasce da compaixão que rompe barreiras sociais, religiosas e identitárias.

Talvez a grande tensão do texto esteja aqui:

A religião tende a organizar o amor.
O Reino tende a desorganizá-lo.

Porque amar de verdade exige vulnerabilidade.
Exige interrupção.
Exige deslocamento.

O sacerdote e o levita mantiveram sua pureza.
O samaritano perdeu tempo, recursos e segurança.
Mas apenas um viveu o mandamento.

No fim, a pergunta não é teológica.
É existencial.

O que está escrito na Lei…
já sabemos.

A questão é:
Como estamos interpretando com a nossa vida?

E talvez a pergunta mais inquietante seja:

Estamos passando ao lado da dor enquanto discutimos sobre amor?

Porque a vida eterna, no texto, não começa depois da morte.
Ela começa quando o amor deixa de ser conceito e se torna movimento.

E isso nos coloca diante de uma escolha silenciosa todos os dias.

Responder certo…
ou viver certo. 🌿

  

sexta-feira, 3 de março de 2017

Acreditar e Crer

"Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna."
João 3 .13


Essas são palavras de Jesus. Talvez as mais conhecidas de toda a Bíblia. Mas também estão entre as mais profundas.

O Novo Testamento foi escrito em grego. E, nesse versículo, o verbo “crer” não aparece como algo pontual, isolado no passado. Ele carrega a ideia de continuidade.

Não é apenas “quem creu”.
É “quem crê… e continua crendo”.

Não é um momento.
É um caminho.

Crer, aqui, não é só admitir que Jesus existe. Não é apenas repetir uma declaração de fé. Não é um evento religioso que aconteceu um dia.

É permanência.
É confiança contínua.
É relacionamento vivo.

A própria Escritura diz em Tiago 2:19 que até os demônios creem que Deus existe. Eles sabem quem Ele é. Reconhecem Seu poder. Mas não se relacionam com Ele. Não confiam. Não se entregam.

Então existe uma diferença silenciosa, mas decisiva:

Acreditar é reconhecer uma existência.
Crer é confiar a própria vida.

Acreditar é informação.
Crer é transformação.

Crer, no sentido de João 3:16, é entrar em relação com o Autor da vida. É permitir que essa confiança molde decisões, pensamentos e atitudes. É permanecer ligado, como quem respira.

Vida eterna, então, não é apenas duração infinita.
É qualidade de relação.

Não começa depois da morte.
Começa quando a fé deixa de ser discurso e se torna vínculo.

Talvez a pergunta não seja: “Eu acredito em Deus?”
Mas: “Eu estou vivendo em confiança contínua com Ele?”

Porque crer não é apenas saber sobre Cristo.

É caminhar com Ele.