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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Ao contrário



Havia um grande artista que preparou a exposição mais importante da sua vida.
Cada quadro carregava anos de trabalho, silêncio, profundidade.


No dia da inauguração, ele enviou todas as obras à galeria. Os funcionários montaram tudo com cuidado — iluminação perfeita, molduras alinhadas, espaço impecável.

Mas cometeram um erro simples.

Colocaram todos os quadros de cabeça para baixo.

As portas se abriram pontualmente. A sala estava cheia. Pessoas admiravam as cores, elogiavam a técnica, discutiam significados profundos. Alguns arriscavam interpretações complexas. Outros falavam sobre genialidade, estilo, ruptura estética.

Tudo parecia extraordinário, até que o artista chegou.

Ele observou por alguns segundos. Foi cercado por elogios. Esperaram que ele agradecesse.

Mas ele apenas perguntou:

— Vocês não perceberam que está tudo invertido?

Silêncio.

Às vezes, algo pode estar belo… e ainda assim errado.
Coerente… mas fora do eixo.
Admirado… mas invertido.

Essa imagem ajuda a entender o contexto em que Jesus surge nos Evangelhos.

Ele entra em um cenário religiosamente sofisticado — cheio de normas, discursos e estruturas — mas profundamente desalinhado com a intenção original de Deus.

Religião antes de misericórdia.
Ritual antes de reconciliação.
Aparência antes de transformação interior.

Os quadros estavam na parede.
Mas estavam de cabeça para baixo.

Jesus não veio criar uma nova estética religiosa.
Veio recolocar tudo na posição correta.

Como lembrava Agostinho de Hipona: “Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti.” O problema não era falta de prática religiosa. Era desordem do amor. Amar as coisas certas… na ordem errada.

John Wesley insistia que não existe santidade que não seja prática e amorosa. A fé que não se traduz em misericórdia já começou a se inverter.

O drama é que a inversão é sutil.
Ela mantém a moldura.
Mantém o discurso.
Mantém o ambiente.

Só troca o centro.

E isso continua acontecendo.

Quando prosperidade se torna moeda de troca com Deus.
Quando espiritualidade vira técnica de autoaperfeiçoamento.
Quando Deus passa a existir para realizar projetos pessoais.

Ed René Kivitz costuma lembrar que o Evangelho não é um manual de desempenho, mas um chamado à rendição. E Caio Fábio frequentemente denuncia a tentação de criarmos um deus à nossa imagem — negociável, previsível, conveniente.

Augustus Nicodemus alerta que sempre que a experiência subjetiva se torna maior que a revelação, começamos a inverter o quadro novamente.

A questão nunca foi ausência de religião.
Foi excesso de centralidade no homem.

Eclesiasticamente organizados.
Teologicamente articulados.
Mas existencialmente desalinhados.

O artista não rejeitou suas obras.
Apenas as virou para a posição correta.

Talvez essa seja a tarefa constante da Palavra de Deus encontrada na Biblia:
realinhar o que admiramos,
reordenar o que valorizamos,
recolocar Deus no centro.

Porque quando o homem ocupa o lugar principal, tudo pode parecer impressionante.

Mas continua de cabeça para baixo.



VAIDADE DE VAIDADES

“Vaidade de vaidades”, diz o Pregador.
Assim começa o livro de Eclesiastes.

A palavra “vaidade” ali não fala apenas de orgulho. Ela carrega a ideia de vapor. Névoa. Algo que aparece… e desaparece. Algo que não se pode segurar.

O autor olha para a vida — inteligência, força, conquistas, trabalho, prazer — e percebe um limite. Há uma fronteira invisível que o ser humano não consegue ultrapassar. Podemos acumular conhecimento, construir impérios, organizar planos. Ainda assim, tudo escorre pelas mãos.

Vaidade não é que nada tenha valor.
É que nada, por si só, sustenta sentido eterno.

Logo no início, o livro confronta nossa obsessão por resultados puramente terrenos. Quando vivemos apenas para ganhar, produzir e controlar, acabamos ocupados… mas vazios. Movimentados… mas sem direção.

No capítulo 3, lemos que “tudo tem o seu tempo determinado”. Muitas vezes interpretamos esse texto como um manual pessoal: “há um tempo certo para eu fazer isso ou aquilo”. Mas o foco não está no homem. Está em Deus.

Há tempo de nascer e tempo de morrer.
E ninguém escolhe esses momentos.

Isso não é sobre gerenciamento de agenda.
É sobre soberania.

O texto nos lembra que o tempo não está em nossas mãos. A vida não está sob nosso controle absoluto. A história não gira em torno da nossa vontade.

A grande luta humana é querer controlar o que não nos pertence. Queremos decidir tudo, prever tudo, dominar tudo — inclusive o tempo. Mas essa sede de controle é justamente o que nos distancia da lógica do Reino. Porque, no Reino, plenitude e domínio pertencem a Deus.

No final do capítulo 2, verso 26, o autor diz que Deus dá sabedoria, conhecimento e alegria a quem lhe agrada; mas ao que vive distante dEle, resta apenas acumular — para, no fim, deixar para outro. E conclui: isso também é vaidade.

Fora do contexto, pode parecer que Deus manipula pessoas. Mas, dentro da mensagem do livro, a ênfase é outra: Deus é o Senhor de todas as coisas. Ele permite que experimentemos nossos limites para que percebamos que não somos autossuficientes.

Até a sabedoria pode se tornar vaidade, se for buscada como um fim em si mesma. Conhecer por conhecer. Crescer por crescer. Brilhar por brilhar.

Mas a sabedoria que vem de Deus é diferente. Ela não aponta para o homem. Aponta para a Fonte.

Eclesiastes também revela algo profundo sobre a história. O autor afirma: “O que foi é o que há de ser.” Há ciclos. Repetições. Padrões que retornam.

A própria história de Israel mostra isso: quando o povo confiava apenas em suas próprias forças — em guerras, colheitas, estratégias — fracassava. Quando se submetia ao domínio do Altíssimo, era conduzido, protegido e sustentado.

A vida, então, não é absurda.
Mas é limitada.

E talvez essa seja a grande lição do livro:
Enquanto tentarmos ser o centro, tudo parecerá vapor.
Quando reconhecemos Deus como centro, até o tempo encontra sentido.

Vaidade é viver como se tudo dependesse de nós.
Sabedoria é descansar no fato de que não depende.


quarta-feira, 29 de março de 2017

Olhar

“e Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus…” Êxodo 3.6

O começo do terceiro capítulo do livro de Êxodo introduz uma ênfase na palavra “ver” – no hebraico ra’a. Até o verso 6, o verbo aparece cinco vezes (seis se contarmos a palavra “maravilha” no verso 3 que vêm da mesma raiz). Três das cinco vezes, a palavra está ligada a Moisés.

Moisés vê, vê, vê.

Mas, finalmente, quando Moisés percebe que a sarça ardente não contém apenas uma “grande maravilha”, mas o próprio Deus, o texto diz (3.6):

“Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus.”

A palavra “olhar” (o verbo nvt) no hebraico é diferente da palavra “ver”. Está ligada a observação, a olhar com cuidado, a contemplar (veja: Gen 15:5; 19:17, 26; Ex 33:8; Num 12:8; 21:9; 23:21; 1 Sam 2:32, 16:7).

Aquele que vê, vê, vê… teme olhar.

Este texto me lembrou de nossa geração de cristãos. Uma geração acostumada a ver, ver, ver. Uma geração acostumada a ver “grandes maravilhas” além da simplicidade da sarça. Acostumada a ver e requisitar programações, shows e eventos de suas igrejas.

Uma geração acostumada apenas a ver, mas não disposta a olhar. Pois na hora de olhar, de observar, de se aprofundar no Deus que fala através da Palavra, se esconde.

O final do livro de Êxodo mostra um Moisés diferente. Um Moisés que, com o tempo, aprendeu a olhar e falar com Deus face a face, como qualquer fala com o seu amigo” (Êxodo 33.11).


Que esta seja nossa história. Que possamos aprender com o tempo, que vale a pena nos aprofundarmos nas profundezas de quem Ele é, através da simplicidade da Palavra.
Vamos deixar de ver, e passar a olhar.

PS: Não desperdice oportunidades aparentemente simples (Deus estava na sarça!) de encontrar a Deus. Mesmo que a sarça seja um estudo bíblico vazio, ou um culto no meio da semana, ou até mesmo um estudo da Palavra no som do silêncio no fim de um dia.

 Fonte do ensinamento: Tiago Arrais

sexta-feira, 24 de março de 2017

O que está escrito na Lei? Como a interpretas?

“O que está escrito na Lei? Como a interpretas?”
(Evangelho de Lucas 10:25)

A pergunta parece simples. Mas não é.

Jesus não pergunta apenas o que está escrito.
Ele pergunta como se interpreta.

Há uma diferença profunda entre texto e leitura.
Entre mandamento e consciência.
Entre norma e vida.

O mestre da Lei responde corretamente. Ele cita o centro da revelação:
Amar a Deus com totalidade. Amar o próximo como a si mesmo.


Intelectualmente, ele está certo.
Existencialmente, ainda não.

E aqui começa o drama humano:
Sabemos definir o amor, mas não sabemos nos tornar amor.

Jesus responde:
— Faze isso e viverás.

Não diz: “Explique isso.”
Não diz: “Ensine isso.”
Diz: Viva isso.

O mestre, porém, sente o peso da implicação. Amar é perigoso. Amar é ilimitado. Amar não cabe em categorias seguras. Então ele pergunta:

— Quem é o meu próximo?

Essa pergunta é filosófica antes de ser religiosa.
Ela busca delimitação.
Quer fronteiras.
Quer um perímetro moral onde o dever termina.

Definir o próximo é tentar proteger-se do excesso do amor.

Se eu sei exatamente quem é, sei também quem não é.
E então posso amar sem me arriscar.

Mas Jesus conta uma história que implode essa lógica.

Um homem ferido.
Religiosos passam.
A ortodoxia anda, mas não se inclina.
O saber segue seu caminho, intacto.

E então um samaritano — o improvável, o rejeitado — interrompe sua rota.

Ele não pergunta quem o ferido é.
Ele se torna o que o outro precisa.

E aqui está o ponto filosófico do texto:

O próximo não é uma categoria a ser identificada.
É uma postura a ser assumida.

Jesus inverte a pergunta.

Não é “Quem se enquadra no meu amor?”
É “Eu me disponho a atravessar a distância?”

O mestre queria uma definição.
Jesus oferece uma transformação.

O amor, no Reino, não funciona por critérios de pertencimento.
Ele nasce da compaixão que rompe barreiras sociais, religiosas e identitárias.

Talvez a grande tensão do texto esteja aqui:

A religião tende a organizar o amor.
O Reino tende a desorganizá-lo.

Porque amar de verdade exige vulnerabilidade.
Exige interrupção.
Exige deslocamento.

O sacerdote e o levita mantiveram sua pureza.
O samaritano perdeu tempo, recursos e segurança.
Mas apenas um viveu o mandamento.

No fim, a pergunta não é teológica.
É existencial.

O que está escrito na Lei…
já sabemos.

A questão é:
Como estamos interpretando com a nossa vida?

E talvez a pergunta mais inquietante seja:

Estamos passando ao lado da dor enquanto discutimos sobre amor?

Porque a vida eterna, no texto, não começa depois da morte.
Ela começa quando o amor deixa de ser conceito e se torna movimento.

E isso nos coloca diante de uma escolha silenciosa todos os dias.

Responder certo…
ou viver certo. 🌿

  

sexta-feira, 3 de março de 2017

Acreditar e Crer

"Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna."
João 3 .13


Essas são palavras de Jesus. Talvez as mais conhecidas de toda a Bíblia. Mas também estão entre as mais profundas.

O Novo Testamento foi escrito em grego. E, nesse versículo, o verbo “crer” não aparece como algo pontual, isolado no passado. Ele carrega a ideia de continuidade.

Não é apenas “quem creu”.
É “quem crê… e continua crendo”.

Não é um momento.
É um caminho.

Crer, aqui, não é só admitir que Jesus existe. Não é apenas repetir uma declaração de fé. Não é um evento religioso que aconteceu um dia.

É permanência.
É confiança contínua.
É relacionamento vivo.

A própria Escritura diz em Tiago 2:19 que até os demônios creem que Deus existe. Eles sabem quem Ele é. Reconhecem Seu poder. Mas não se relacionam com Ele. Não confiam. Não se entregam.

Então existe uma diferença silenciosa, mas decisiva:

Acreditar é reconhecer uma existência.
Crer é confiar a própria vida.

Acreditar é informação.
Crer é transformação.

Crer, no sentido de João 3:16, é entrar em relação com o Autor da vida. É permitir que essa confiança molde decisões, pensamentos e atitudes. É permanecer ligado, como quem respira.

Vida eterna, então, não é apenas duração infinita.
É qualidade de relação.

Não começa depois da morte.
Começa quando a fé deixa de ser discurso e se torna vínculo.

Talvez a pergunta não seja: “Eu acredito em Deus?”
Mas: “Eu estou vivendo em confiança contínua com Ele?”

Porque crer não é apenas saber sobre Cristo.

É caminhar com Ele.