“Vaidade de vaidades”, diz o Pregador.
Assim começa o livro de Eclesiastes.
O autor olha para a vida — inteligência, força, conquistas, trabalho, prazer — e percebe um limite. Há uma fronteira invisível que o ser humano não consegue ultrapassar. Podemos acumular conhecimento, construir impérios, organizar planos. Ainda assim, tudo escorre pelas mãos.
Vaidade não é que nada tenha valor.
É que nada, por si só, sustenta sentido eterno.
Logo no início, o livro confronta nossa obsessão por resultados puramente terrenos. Quando vivemos apenas para ganhar, produzir e controlar, acabamos ocupados… mas vazios. Movimentados… mas sem direção.
No capítulo 3, lemos que “tudo tem o seu tempo determinado”. Muitas vezes interpretamos esse texto como um manual pessoal: “há um tempo certo para eu fazer isso ou aquilo”. Mas o foco não está no homem. Está em Deus.
Há tempo de nascer e tempo de morrer.
E ninguém escolhe esses momentos.
Isso não é sobre gerenciamento de agenda.
É sobre soberania.
O texto nos lembra que o tempo não está em nossas mãos. A vida não está sob nosso controle absoluto. A história não gira em torno da nossa vontade.
A grande luta humana é querer controlar o que não nos pertence. Queremos decidir tudo, prever tudo, dominar tudo — inclusive o tempo. Mas essa sede de controle é justamente o que nos distancia da lógica do Reino. Porque, no Reino, plenitude e domínio pertencem a Deus.
No final do capítulo 2, verso 26, o autor diz que Deus dá sabedoria, conhecimento e alegria a quem lhe agrada; mas ao que vive distante dEle, resta apenas acumular — para, no fim, deixar para outro. E conclui: isso também é vaidade.
Fora do contexto, pode parecer que Deus manipula pessoas. Mas, dentro da mensagem do livro, a ênfase é outra: Deus é o Senhor de todas as coisas. Ele permite que experimentemos nossos limites para que percebamos que não somos autossuficientes.
Até a sabedoria pode se tornar vaidade, se for buscada como um fim em si mesma. Conhecer por conhecer. Crescer por crescer. Brilhar por brilhar.
Mas a sabedoria que vem de Deus é diferente. Ela não aponta para o homem. Aponta para a Fonte.
Eclesiastes também revela algo profundo sobre a história. O autor afirma: “O que foi é o que há de ser.” Há ciclos. Repetições. Padrões que retornam.
A própria história de Israel mostra isso: quando o povo confiava apenas em suas próprias forças — em guerras, colheitas, estratégias — fracassava. Quando se submetia ao domínio do Altíssimo, era conduzido, protegido e sustentado.
A vida, então, não é absurda.
Mas é limitada.
E talvez essa seja a grande lição do livro:
Enquanto tentarmos ser o centro, tudo parecerá vapor.
Quando reconhecemos Deus como centro, até o tempo encontra sentido.
Vaidade é viver como se tudo dependesse de nós.
Sabedoria é descansar no fato de que não depende.
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