Havia um grande artista que preparou a exposição mais importante da sua vida.
Cada quadro carregava anos de trabalho, silêncio, profundidade.
No dia da inauguração, ele enviou todas as obras à galeria. Os funcionários montaram tudo com cuidado — iluminação perfeita, molduras alinhadas, espaço impecável.
Mas cometeram um erro simples.
Colocaram todos os quadros de cabeça para baixo.
As portas se abriram pontualmente. A sala estava cheia. Pessoas admiravam as cores, elogiavam a técnica, discutiam significados profundos. Alguns arriscavam interpretações complexas. Outros falavam sobre genialidade, estilo, ruptura estética.
Tudo parecia extraordinário, até que o artista chegou.
Ele observou por alguns segundos. Foi cercado por elogios. Esperaram que ele agradecesse.
Mas ele apenas perguntou:
— Vocês não perceberam que está tudo invertido?
Silêncio.
Às vezes, algo pode estar belo… e ainda assim errado.
Coerente… mas fora do eixo.
Admirado… mas invertido.
Essa imagem ajuda a entender o contexto em que Jesus surge nos Evangelhos.
Ele entra em um cenário religiosamente sofisticado — cheio de normas, discursos e estruturas — mas profundamente desalinhado com a intenção original de Deus.
Religião antes de misericórdia.
Ritual antes de reconciliação.
Aparência antes de transformação interior.
Os quadros estavam na parede.
Mas estavam de cabeça para baixo.
Jesus não veio criar uma nova estética religiosa.
Veio recolocar tudo na posição correta.
Como lembrava Agostinho de Hipona: “Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti.” O problema não era falta de prática religiosa. Era desordem do amor. Amar as coisas certas… na ordem errada.
John Wesley insistia que não existe santidade que não seja prática e amorosa. A fé que não se traduz em misericórdia já começou a se inverter.
O drama é que a inversão é sutil.
Ela mantém a moldura.
Mantém o discurso.
Mantém o ambiente.
Só troca o centro.
E isso continua acontecendo.
Quando prosperidade se torna moeda de troca com Deus.
Quando espiritualidade vira técnica de autoaperfeiçoamento.
Quando Deus passa a existir para realizar projetos pessoais.
Ed René Kivitz costuma lembrar que o Evangelho não é um manual de desempenho, mas um chamado à rendição. E Caio Fábio frequentemente denuncia a tentação de criarmos um deus à nossa imagem — negociável, previsível, conveniente.
Augustus Nicodemus alerta que sempre que a experiência subjetiva se torna maior que a revelação, começamos a inverter o quadro novamente.
A questão nunca foi ausência de religião.
Foi excesso de centralidade no homem.
Eclesiasticamente organizados.
Teologicamente articulados.
Mas existencialmente desalinhados.
O artista não rejeitou suas obras.
Apenas as virou para a posição correta.
Talvez essa seja a tarefa constante da Palavra de Deus encontrada na Biblia:
realinhar o que admiramos,
reordenar o que valorizamos,
recolocar Deus no centro.
Porque quando o homem ocupa o lugar principal, tudo pode parecer impressionante.
Mas continua de cabeça para baixo.